domingo, 13 de maio de 2012

- BULLYNG E SÍNDROME DA ALIENAÇÃO PARENTAL –



Minha mãe era considerada a melhor educadora da escola onde lecionou durante 35 anos, talvez por isso determinadas atitudes e comportamentos de sua parte,  não eram questionados em família . Ser professor era uma  honra, porque naquela época a classe  era tratada com certo respeito  pelos  nossos governantes, e idolatrado por muitos que não tinham tido a oportunidade de estudar. Fui cercada do que havia de melhor nessa parte da educação escolar, mas não o melhor que  eu  queria, e sim o que eles achavam que seria melhor dentro daquele destino que havia sido traçado para cada um de nós.  Cresci sem que meus pais prestassem  atenção em  mim, nem tinham tempo porque trabalhavam feito loucos para manter o  padrão de vida que nos era dado. Eram pessoas  honestas, queridas pelos outros e muito  dedicados à profissão. Tudo foi conseguido com muito esforço.
Começo o meu relato um pouco maior, porque lembro muito pouco de quando era pequenina, só mesmo de minha avó materna que tomava conta de nós enquanto minha mãe estava na escola. Coitada, saía pela mesma porta que minha mãe entrava. Recordo bem que minha mãe questionava o fato de ela ir embora  sem mesmo ter almoçado, e ela respondia: ”vou embora antes que você comece a bater na minha Nina” ( apelido colocado em mim pela minha avó). No Jardim de Infância, minha mãe encasquetou que devia fazer aulas de balé e ser uma bailarina. Ora, bastava olhar para ela e para meu pai e ver que não podia ter estrutura óssea para tal: eu era grande, a maior aluna da sala. Depois, no primário, queria que tocasse acordeão nas festas da escola – morria de vergonha carregando aquela instrumento enorme, sendo alvo de atenção e comentários jocosos por parte de meus colegas, afinal estávamos na era do Rock, baby!  Depois, veio o tempo  da  cantora lírica.... outros e outros sucessivamente
 ( minha mãe tinha muitas planos para mim). Já meu pai sonhava menos, só queria que fosse  advogada.  Por fim, anos mais tarde, como não dei para nada daquilo, planejaram me empurrar para algum infeliz filho de comerciante no bairro em que morava; a solução para se livrarem do peso inútil, foi a  de me casar com um marido rico e, naturalmente, passar o pacote para qualquer um que se candidatasse a tal. E por ai foi ... uma sucessão de decepções por parte deles, pois o tempo que tinham livre, se preocupavam com a opinião dos outros. Com tudo  isso, acho que  foram tomando ódio de mim o que não foi difícil, pois já não morriam de amores. Quando se  cansaram das investidas, todas elas mal sucedidas,  me colocaram de lado como se fosse algo desprezível, uma criatura incapaz “não a altura deles”.
Meus pais queriam exibir os filhos como se exibe um troféu . Por ter sido filha de professores,  tinha de ser uma comportada, genial e talentosa menina, a melhor em tudo, e nenhum ser humano é bom em tudo. Não enxergavam que era uma pessoinha que tinha vontades, gostos e aptidões próprias. Na verdade, eu não tive mãe, e sim uma espécie de capataz, só que naquela época eu não tinha consciência disso, e cresci uma criança triste, sozinha, complexada, se achando um lixo, incapaz de fazer meus pais felizes. Lembro que era péssima em Matemática e apanhava feito uma louca toda véspera de prova. Depois vinha outra coça com o resultado das notas. Mas nada disso era tão terrível quanto a  tortura psicológica, essa sim era de extrema covardia, porque uma criança não tem como se defender, e acaba enfiando na cabeça tudo aquilo que é dito para ela. É como traçar o destino daquele ser...todos os dias escutava aquele rosário de insultos, que começava logo no café da manhã e terminada na hora de dormir: “você não presta para nada”, “sai de perto de mim porque eu odeio você”,  “você nunca vai ser nada na vida”, “que só os dois meninos eram filhos dela”,“você tem cheio de pobre”, “é uma desocupada na vida”,” você será sempre uma fracassada na vida”, “um zero a esquerda”, “uma idiota”, “cala boca sua imbecil”, “você é uma burra e  inútil”,  “você não faz nada que presta”, “não é capaz de nada” eu tenho vergonha de ter tido uma filha burra”,  “vai pastar na vida”, “você é uma infeliz”, “uma horrorosa”, “uma medíocre”,  “que era um traste como pessoa”... e há uns anos atrás eu escutei um novo repertório, do tipo: “eu não vou sossegar enquanto não vir você sentada num banco de praça pedindo esmola” e “ tomara que um carro te pegue na rua e te mate, pelo menos vai ser a última vez que vou olhar para a sua cara de imprestável”.
Meu pai não me batia, acho que isso revoltava ainda mais minha mãe. Quando ela  percebeu que ele nunca iria fazê-lo  (talvez por ser uma menina), partiu para outra estratégia, a de minar o nosso relacionamento, (aliás ela vivia se vangloriando com a capacidade que tinha de manipular as pessoas, de tirar e colocar as pessoas onde ela bem quisesse, como num tabuleiro de xadrez) e assim começou a me jogar contra ele dizendo que “ele não gostava de mim”, “estava decepcionado comigo porque não fazia nada que o agradasse”, “não queria ver a minha cara na frente dele”, “que eu não dirigisse a  palavra ele”, “que ele era muito ocupado para perder tempo com uma imprestável”, “que por ele eu já não morava mais em casa, que estava ali de favor”, “que a minha presença incomodava ele”, “que eu só estava morando em casa porque ela (mãe) pedia para ele não me colocar na rua”... e a coisa chegou a um ponto tal, de ter medo de  ir ao banheiro a noite e encontrar com ele acordado, pois muitas das vezes corrigia provas de madrugada. Por sua vez, ele se lixava para o que ela fazia, porque o que ele menos queria, era não se dispor com ela. Em contra partida, descia o sarrafo no meu irmão ( dois anos mais novo), que chegava a ser pior do que eu nos estudos; ele sim não queria nada com nada, só jogar bola. Mas meu irmão era o protegido da minha mãe, e cada vez que ele apanhava, ela dava um jeito de me arrebentar. E não era pancadinha de chinelo, era tapa na cara, ela me agarrava pelos cabelos e esfregava o meu rosto no chão, pisava na minha cabeça, era surra de cinto e até de pedaço de pau. 
Uma das piores humilhações que passei na vida foi aos 12 anos, na minha  pré-adolescência. Minha professora detectou que tinha problemas de visão e, muito contra gosto, minha mãe me levou a um oftalmologista, que logo receitou um par de óculos. Eu não enxergava direito e ela nem sabia disso. Logo de cara fui para 3,5° de miopia, e ela fez o favor de comprar para mim uns óculos enormes, modelo masculino, que cobria quase todo o meu rosto, daquele tipo do “Waldick Soriano”, e me obrigou a usar até eu tivesse dinheiro para comprar outro. Mas ela fez isso (acredito) porque meus olhos são esverdeados, e ela odiava quando alguém dizia que os meus olhos eram parecidos com os dela, aliás detestava qualquer associação  entre nós duas. Quando chegava em casa da escola, a primeira coisa que fazia era tirar os óculos do meu rosto e esconder. Lia e fazia os deveres de casa com muita dificuldade, o que logo contribuiu para o aumento da miopia. Perdi as contas do tanto que chorava implorando meus óculos de volta, e a resposta era sempre a mesma:  que eu era uma mentirosa, tinha enganado o médico e que não precisava dos óculos  para enxergar. Essa tortura perdurou até o começo do  científico.
Não aguentando mais as suas loucuras, aos 19 anos fui embora de casa depois que ela descobriu que namorava um rapaz pobre. Nesta época fazia a minha faculdade de Jornalismo e trabalhava como bancária no Méier. Chegava em casa a noite, cansada, com fome, e ela ficava me esperando atrás da porta com uma facão na mão e corria atrás de mim pela casa querendo me matar por conta do tal rapaz. Como ela vivia falando mal de mim para todo mundo, tinha pavor da opinião alheia, e  como detestava pobres,  a última coisa que queria ver acontecer, era que os outros soubessem que estava namorando um “pé-rapado” . Nesta época eu e meu pai não nos falávamos mais de tanta intriga que ela fazia entre a gente, que se atolava cada vez mais de cargos  na Universidade  e no Colégio. Com isso,  chegava em casa bem tarde, de preferência quando já estávamos dormindo. Quanto menos ele visse e escutasse, melhor.
Uma outra passagem que me aborreceu e envergonhou bastante foi por ocasião da morte de meu pai. Em 1994 ele descobriu que estava diabético, e como tal não poderia tomar qualquer medicação e comer qualquer comida (além de doces), vivia numa dieta rigorosa por conta da isquemia que teve. Como diretor adjunto de uma escola, ele aproveitava e comia escondido, burlava geral a dieta imposta pelo médico, e não deu muito certo. Um belo dia daquele  mesmo ano, voltou para casa se queixando de frio e resfriado. Minha mãe deu-lhe um remédio, desses para gripe que se compra no balcão da farmácia, ele foi para a cama  se deitar e não acordou mais. Pois ela espalhou para toda vizinhança que eu tinha matado o meu pai de desgosto por não ter me tornado nada na vida, uma inútil como assim bem ela me descrevia. Passei a maior vergonha na frente das pessoas e dos familiares, todos ficavam me olhando como se fosse culpada por ele ter desistido de viver. Pior é que ela fala isso para os outros até hoje. Meu pai terminou seus dias completamente infeliz. Ao longo dos anos, ele foi permitindo que ela conduzisse a sua vida e quando quis tomar as rédeas, era tarde demais.
Perderia um dia inteiro relatando casos de “abusos " que sofria dentro de minha casa, porque os relatos não terminam por aqui, depois da morte de meu pai, ela se ocupou em minar o meu relacionamento com meus filhos . Torturar psicologicamente uma criança devia ser considerado um  crime cruel, desumano e covarde, porque  chega num ponto de você não aguentar  mais e fazer  qualquer coisa para se livrar de tudo aquilo  e não ver aquela (s) pessoa (s) nunca mais, é onde se  foge de casa,  cai nas drogas, na prostituição, na vida do crime, acaba se matando ou se tornando violento, descontando em quem vê pela frente. Sim, porque a vida te  espera lá fora, cheia de armadilhas, e o resultado dos “maus tratos” é que você acaba se atirando para cima do primeiro que se oferece para te livrar de toda aquela opressão, e nem sempre as ajudas são do Bem, talvez por isso vemos tantas crianças desaparecidas nos noticiários atuais. Só quem passou por isso sabe a devastação que o Bullyng e a Alienação parental  provoca na vida de uma pessoa. Foram  anos e anos  me culpando por coisas que nem sabia de onde vinham. Eu não me olhava no espelho porque não queria ver a minha feiura, sabe lá o que é isso ? A pessoa fica anestesiada, não reage, não tem coragem de falar com os outros com vergonha de si mesma,  fica  insegura, porque aquela  sensação de incapacidade  paira o tempo todo sobre você e tudo que tenta fazer, é como a Lei da Atração – o fracasso te persegue. Cresci sozinha, não podia ter amigos e nem comentar nada na família, porque tudo chegava aos ouvidos dela. Minha mãe era uma mulher tão bonita por fora, mas extremamente insegura,  carente, castradora, autoritária e só ela podia ser o centro das atenções.
Como passei uma parte de minha vida trancada num quarto, tomei gosto pela leitura e foram nos LIVROS que procurei ajuda. Saí buscando respostas, primeiro na religião  e depois, quando achei que as respostas não me satisfaziam, voltei aos estudos, porque sempre que tentava me desvencilhar dela, caía em suas mãos. Tempos mais tarde, compreendi que o Universo é implacável, quanto mais se rejeita, de alguma forma aquela situação volta para perto, é como um imã: nada mais justo, porque boicotavam toda oportunidade de trabalho que aparecia, alegando incapacidade da minha parte. Por outro lado, fui contemplada com  alguns ANJOS  que o Universo colocava no meu caminho, no momento onde  a dificuldade era muito grande e me sentia encurralada, porque as minhas ajudas vinham sempre de fora, pois estava sempre  sozinha em tudo. Um dia, Padre Fábio de Melo disse: “Perdoar é se livrar do lixo que as pessoas jogaram em cima de você”.  O meu conselho para quem passou ou passa por esta mesma situação é: PERDOE, mas faça isso de coração e  o quanto antes, porque a última coisa que você pode querer, é que esse lixo volte na próxima encarnação. Rompa com essa frequência de repetições na sua vida.  Limpe a sua alma e não permita que te joguem lixo novamente.  As pessoas falam tanto em religião, em Jesus, mas não respeitam o seu próximo. Se somos feitos à imagem e semelhança do Criador, há quem estamos desrespeitando ?
De forma alguma estou aqui para expor a imagem de minha mãe que hoje é uma senhora de 78 anos ( longe de mim ser responsável pela morte de mais alguém), muito menos dar o troco, e  sim para alertar e levantar essa discussão do BULLYNG e da ALIENAÇÃO PARENTAL que, muitas das vezes,  começa dentro da nossa própria casa e vai ter  - com certeza - o seu transbordamento na vida escolar, no trabalho ou num relacionamento. A hora de falar sobre isso é URGENTE nesse mundo tão violento que vivemos,  e como me tornei uma DESOCUPADA NA VIDA , passo os meus dias na internet trocando ideias  nas Redes Sociais, relatando as minhas experiências e onde fui buscar ajuda. Posso não ter tido sucesso na vida profissional  como minha mãe joga na minha cara até hoje, mas de alguma forma me considero uma vencedora pelo simples fato de não ter sido enterrada viva, mesmo depois de  toda campanha feita na intenção de me  empurrar para o buraco e jogar terra em cima. Traumas? Opa, é claro que  ficaram... até hoje  não gosto de ver pais  empunhando o dedo no rosto de  filhos, falando em tom de áspero, de ameaça, gritando, empurrando ou batendo...eu me sinto mal, parece que todo aquele lixo  recai sobre o meu corpo. Olhando para trás, consigo enxergar quanto me tornei forte, mais até do que imaginava, e compreendi   que a vida começa todos os dias. 

Um comentário:

Sônia Silvino, Crazy about Blogs! disse...

Amiga! Tua história poderia se transformar em livro. Como professora formada em Letras e com tanta facilidade em escrever bem, que achas? Eu seria a primeira a comprar um exemplar. Já tens bastante material. Crie um personagem, mude os nomes etc. Pense nisso! Além de ser uma terapia botar tudo que incomoda para fora. Aqui também fazes isso, mas não ganhas dinheiro com isso. Que tal a ideia? Beijocas!